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Transplante de Fígado

   Atualmente, mais de 6200 pessoas aguardam por um transplante de fígado no Brasil, sendo que apenas 1000 transplantes são realizados anualmente. Em termos gerais, o fígado é o segundo órgão mais transplantado, perdendo apenas para o rim, o que mostra o quão comum e quão sério é a doença hepática em estágio final no Brasil.

Saiba mais informações sobre o funcionamento do fígado aqui.

    Alguns termos básicos.

   É importante, tanto para os familiares quanto para os pacientes entenderem os processos básicos que envolvem o transplante hepático, bem como os desafios e eventuais complicações que um receptor de fígado terá de passar após receber um novo órgão. Alguns termos:

   - Doador de fígado: é a pessoa que doa, parte ou o órgão inteiro para a pessoa que se encontra em lista de espera. A maioria dos doadores são pessoas que faleceram e seus familiares decidiram doar seus órgãos. Em outros casos, um parente, em vida, decidiu doar parte de seu fígado.
   - Transplante ortotópico de fígado: Refere-se ao procedimento em que o fígado doente é removido do paciente e um novo órgão saudável, proveniente de um doador cadáver, é colocado no mesmo lugar.
   - Transplante intervivos: um doador saudável, em vida, doa parte de seu fígado (mediante procedimento cirúrgico) ao paciente com doença hepática em estágio terminal. Geralmente esse procedimento ocorre quando o transplante envolve crianças, em que apenas um segmento do fígado já é o suficiente.


   Determinando quem precisa de um órgão.

   Desde maio de 2006, o Ministério da Saúde acabou com o quesito “tempo” na lista de espera ao introduzir o sistema MELD (adultos maiores de 18 anos) e PELD (para menores de 18 anos) de pontuação (lançado nos EUA em 2002) para colocar os pacientes em lista de espera, ambos determinados através de uma série de exames laboratoriais.

   MELD – seu cálculo utiliza: dosagem de bilirrubina total (substância amarela que forma parte da bile); creatinina (substância que reflete a função dos rins) e; RNI (é um índice que permite avaliar a coagulação do sangue... lembrando que o fígado produz as substâncias responsáveis por tal fenômeno).

   PELD – seu cálculo utiliza: albumina (proteína produzida no fígado); dosagem de bilirrubina total; RNI; índice de crescimento da criança.

   Através desses métodos de pontuação, o paciente com doença hepática em estágio final é colocado mais à frente ou mais atrás na fila conforme melhora ou piora dos seus exames, sendo que, quando há piora, seus scores acabam subindo e, consequentemente, favorecem o mesmo a receber um novo órgão antes de quem está com a função hepática mais preservada. É uma maneira de priorizar quem precisa mais urgentemente de um transplante hepático!

   Quem não pode receber um órgão.

   Nem todas as pessoas com doença hepática terminal pode receber um órgão. Dentre esses, temos:

   - Uso ativo de álcool ou outras substâncias – Nesses casos poderia haver o comprometimento do novo órgão transplantado.
   - Câncer – Câncer em outras localizações que não seja apenas no fígado pesa contra a realização do transplante.
   - Doenças cardíacas e pulmonares avançadas – Essas condições impedem uma sobrevida a longo prazo do paciente que recebe um fígado novo.
   - Infecção severa – Constitui em ameaça a um bom resultado do transplante;
   - HIV – Não se constitui atualmente mais em uma contraindicação absoluta em diversos Serviços de Transplante Hepático.

   A busca por um doador.

   Uma vez que o paciente é aceito para transplante, o mesmo é registrado na Central Estadual de Transplante (juntamente com seu valor de MELD) dentro de uma lista de espera. Dependendo dos valores de MELD, os exames de sangue são periodicamente renovados.

a) MELD até 10 - validade de doze meses, exame colhido nos últimos 30 dias;
b) MELD de 11 a 18 - validade de três meses, exame colhido nos últimos 14 dias;
c) MELD de 19 a 24 - validade de um mês, exame colhido nos últimos sete dias;
d) MELD maior que 25 - validade de sete dias, exame colhido nas últimas 48 horas;
e) PELD até 3 - validade de doze meses, exame colhido nos últimos 30 dias;
f) PELD superior a 3 até 6 validade de três meses, exame colhido nos últimos 14 dias;
g) PELD superior a 6 até 8 - validade de um mês, exame colhido nos últimos 7 dias; e
h) PELD superior a 8 - validade de sete dias, exame colhido nas últimas 48 horas.

 


O critério para receber um órgão irá basear-se então para os maiores valores de MELD e PELD e o tipo sanguíneo compatível entre doador e receptor.

 

 

   Lembrando ainda que os doadores cadáveres correspondem à grande maioria das doações dos órgãos. Geralmente são pacientes jovens que sofreram graves traumatismos cranianos e que muitas vezes possui o diagnóstico de morte encefálica (saiba mais).

 

   Assim, familiares são abordados por profissionais qualificados que os orientam para a possibilidade de se doar os órgãos de seu ente querido. Infelizmente, por falta de informações sobre o tema, a recusa é elevada, gerando uma séria escassez de órgãos para transplante. Para se ter uma idéia da seriedade dessa situação, 15% a 20% dos pacientes em lista de espera vão a óbito antes mesmo de receber um órgão novo pela ínfima quantidade de doadores.

   Além disso, não é qualquer pessoa que pode doar. Comportamento de risco, sorologias positivas para diversas doenças, exames laboratoriais do fígado alterados constituem algumas das inúmeras contraindicações à doação.

    Causa que levam ao transplante.

   A doença hepática em estágio terminal provêm de diversas condições que afetam o fígado. Geralmente a equipe de transplante, avaliando os exames laboratoriais conjuntamente com as condições clínicas gerais, é que determinará se irá indicar o transplante hepático ou não do paciente.

   Em linhas gerais, as principais doenças que levam o paciente a ser listado para o transplante são:

   1º - Cirrose hepática por hepatite C
   2º - Cirrose por álcool
   3º - Cirrose por hepatite B
   4º - Cirrose criptogênica (cirrose em que, apesar de toda a investigação, não se acha uma causa definida)

   Em crianças, a principal indicação é a atresia de vias biliares (caracteriza-se pela ausência ou a malformação dos canais que transportam a bile do fígado ao intestino).

   Importante citar ainda que os paciente geralmente são inscritos para o transplante quando a função do fígado está irreversivelmente deteriorada ou quando há complicações (como sangramento por veias dilatadas – as varizes – no esôfago, acúmulo de líquido dentro do abdome – a ascite – ou ainda paciente compensados porém já com câncer no fígado em virtude da doença terminal – o hepatocarcinoma).

   A cirurgia.

   A incisão é feita na barriga em formato de um “Y” invertido (lembra ainda o símbolo da Mercedes-Benz). O fígado doente é então completamente removido, com a colocação de um novo órgão no local (proveniente de um doador cadáver ou doador vivo). É uma cirurgia em que o paciente recebe grande quantidade de transfusão de sangue e de outras substâncias retiradas também do sangue (para a coagulação e reposição de proteínas). O procedimento pode durar de 6 a 12 horas. Ainda é colocada uma série de tubos que retirarão eventuais líquidos e sangue que porventura possam se acumular durante os primeiros dias de pós-operatórios.

   A seguir da cirurgia, todos os pacientes são encaminhados à UTI, onde permanecem, em média, de 5 a 7 dias. Após a completa recuperação, os pacientes são então encaminhados para o quarto. O tempo médio de estada no hospital varia de 2 a 3 semanas.

   Prevenindo a rejeição.

   Durante todo o internamento e após a alta, o paciente irá tomar uma série de medicamentos (geralmente comprimidos) que irão ajudar o fígado a sobreviver, ao impedir que o próprio corpo do paciente rejeite aquele órgão “estranho” (são os medicamentos imunossupressores).

   Geralmente os três primeiros meses serão quando o paciente tomará a maior quantidade desses medicamentos. Após, conforme a evolução (avaliada pelo exame físico e exames laboratoriais), a Equipe poderá reduzir a dose ou até suspender alguns dos medicamentos.

   Mas é importante também!
   - O paciente estar familiarizado com os medicamentos;
   - Notar seus efeitos colaterais bem como entender que eles não ocorrem em todos os pacientes;
   - Os efeitos colaterais tendem a diminuir ou a desaparecer conforme suas dosagens forem sendo reduzidas;
   - Cada paciente é um paciente!!! A medicação e as dosagens são fornecidas de forma individualizada!
   - Pelo fato de tais medicamentos comprometerem a imunidade dos pacientes, estes estão propensos a desenvolverem uma série de infecções (por vírus, bactérias e/ou fungos). Por isso, são fornecidas medicações para impedi-las ou retardá-las, as quais variam de Equipe para Equipe.

   O acompanhamento pós-operatório.

   Após a alta, o paciente receberá um acompanhamento intensivo. Nos primeiros 3 meses, o retorno para a visita com o Hepatologista e o Cirurgião ocorrerá a cada 1-3 semanas, nas quais serão solicitados exames laboratoriais para avaliar a função do novo fígado, exame físico completo e reavaliação dos medicamentos e dosagens.

   Após esse período, as visitas são reduzidas a uma por mês até completar um ano de cirurgia sendo que, após esse período, o acompanhamento se torna cada vez mais esparso, porém o paciente sempre deverá estar em contato com a Equipe, mesmo após longos anos de pós transplante.

   A longo prazo.

   A sobrevida em 1 ano após o transplante gira em torno de 90% dos pacientes, caindo para menos de 60% naqueles que estavam criticamente doentes no momento da cirurgia. Em cinco anos, a sobrevida é de aproximadamente 80%. Esses bons resultados advem de Equipes cada vez mais experientes, do uso de medicações imunossupressoras modernas e de protocolos definidos de indicação e acompanhamento dos pacientes transplantados. Em média, um fígado transplantado permanecerá funcionando corretamente por um período que varia de 10 a 20 anos.

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Essas informações não possuem a intenção de substituir conselhos médicos profissionais. Você não deve utilizar essas informações para diagnosticar ou planejar um tratamento para um problema de saúde sem consultar um médico qualificado. Se você está em alguma situação que coloque em risco sua saúde ou de emergência, procure ajuda médica.

 

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